Caboco Marajoara

domingo, agosto 02, 2009

Michael Jackson

Geração Michael Jackson
Gursen De Miranda *

Na sexta-feira (26.JUN.2009) acordei sentido algo como poucas vezes senti – um vazio, um mal-estar e o corpo dolorido. Quantos não sentiram o mesmo. Em gabinete de trabalho, a porta que permanece sempre aberta, pedi à secretária fechar, avisando não gostar de ser importunado. Preferi não conversar com ninguém, evitando ouvir incompreenções e (pré) julgamentos.

A morte é a grande (e única) certeza da vida. Para usar as palavras de HEIDEGGER, o tempo humano é essencialmente um tempo com limite (Martin Heidegger – 1889/1976, O ser e o tempo). Convivo de frente com este fato humano natural desde os nove anos de idade, quando um certo médico falou para meus pais, estando presente, que não viveria muito e, certamente, não chegaria aos vinte. A emoção transbordava ouvindo Ben. Já passei dos cinquenta.

As reações das pessoas são diferentes com o evento morte, independentemente da relação com o outro em vida. Com a irmã que tive, também como mãe, quando foi brutalmente agredida no trânsito a lhe tirar a vida (26.JUN.2004), não houve tempo para sentir, a preocupação maior foi com meus pais – ela não era apenas filha, mas mãe, irmã, amiga, confidente, companheira, mulher. Lembrei de conversa uns quinze dias antes, por mais de hora e meia em interrurbano: não ficaria “velha” e mudaria de vida, seria outra pessoa. Pareceu-me um aviso. Com meu pai, quatro meses depois, o fato era esperado. Apesar da lucidez de sua mente, a matéria, na forma de seu corpo, estava debilitada, acelerando-se com a perda da filha. Sentia-se realizado por haver concretizado o sonho de educar seus sete filhos na “cidade grande”. No hospital (15.OUT.2004, quando a filha completaria cincoenta e cinco anos de idade), em menos de duas horas, os sinais vitais foram diminuindo lentamente até parar de respirar, com um leve ar de felicidade estampado no rosto.

Michael Jackson provocou sentimento singular, quando a notícia de sua parada cardíaca se espalhou pelo mundo. Questionava-me ultimamente sobre as “razões” (longe da lógica kantiana) da preferência na produção de notícias negativas sobre o “rei do pop”. Acompanhei sua trajetória com permanente atenção e entusiasmo, consciente de meus limites em não ultrapassar o pequeno círculo de teatro amador, as raras apresentações de dança folclórica e os festivais escolares de canto coral. O sentir a expressão artística sob a “crítica do juízo” (Immanuel Kant – 1724/1804) revela o belo e o sublime em sua arte.

Michael (re) inventou o “ser artista”, para além do cantar e do dançar, teatralizar, mas, mais, ainda, com os recursos de multimídia de última geração na produção de seus fantásticos clips. Letrista que fazia música sem conhecer partitura, mas coreografia para marcar o tempo com o corpo, o rosto, os braços e as pernas, dançando na lua (moonwalk); a voz em afinadíssima interpretação. Foi um mago na mistura de sons e rítmos, “mestiçou a música”.

O lançamento de Thriller, em 1983, passou a ser a estrela que marcou a música em proporções transespaciais e transtemporais. Tornou-se único. À época havia retornado para Belém do Pará, após concluir especialização em Goiânia, e os “embalos de sábado à noite”, com Sandrinha, nas discotecas dos Bee Gees foram outros, nem mesmo o muro (The Wall) do clássico contemporâneo do Pink Floyd seria obstáculo. Nas idas de Boa Vista à Venezuela pela estrada a música de MJ era companhia inseparável, como parte da educação musical de meus filhos (Caio Sandro, Themis Eloana e Essayra Raisa), as quais acrescentei History, adquirido em Margarita (1996), acreditando obra de aplauso final.

Não respeitaram o gênio; agrediram a pessoa humana; ignoraram seus sentimentos, desconsideraram seus traumas. O físico e o mental de Michael, da concepção de pessoa de DESCARTES (René Descartes – 1596/1650, Meditações sobre a filosofia primeira), não suportaram; foi consumido (literalmente) pelos que se julgam “donos” da opinião e do mundo. Lembro de SARTRE e chego a pensar que o ser é nada (Jean-Paul Sartre – 1905/1980, O ser e o nada).

Incrível Michael Jackson. Chorei.

* Magistrado

(Fonte: Jornal Folha de Boa Vista, de 27 de julho de 2009).