Açai, leite e caboco
AÇAI E LEITE NÃO É PRO CABOCO
Alcir Gursen De Miranda[1]
Sou do tempo em que o leite de vaca era distribuído pela cidade por meio de carroças, puxadas por cavalo, em grandes latões; os interessados em tomar leite fresco colocavam o recipiente próprio no parapeito da janela, para identificar ao “leiteiro”. Próximo a casa de meus pais, no bairro de Canudos, havia duas vacarias (uma na Travessa Teófilo Conduru c/c Rua Silva Rosado e a outra na Travessa Guerra Passos c/c Rua Roso Danin) e saí algumas vezes, como carona, na carroça de leite, por brincadeira de criança na satisfação da curiosidade; lembro bem da grande clientela na Generalíssimo. Praticamente todos reclamavam que o leite era “batizado”, na vacaria e pelo leiteiro – um litro de água no latão com leite não faria mal para ninguém e se ganharia um trocado a mais. Depois, por meio da mídia, começou intensa campanha denunciando a falta de higiene do leite das vacarias; o leite deveria ser industrializado, por ser mais moderno – o leite pasteurizado se fixou no mercado e as vacarias desapareceram! Quarenta anos depois vejo, ouço e leio a notícia que as indústrias de produção de leite estão adicionando magnésia, água oxigenada e até soda caustica, para melhor “conservar” o leite... como o leiteiro era inocente em “batizar” o leite com água. Não sei da existência de vacarias, nos dias de hoje, em Belém do Pará.
Atualmente acompanho, por todos os meios de comunicação possível - nesta era da globalização onde tudo está à disposição de todos por meio do sistema www -, a forte campanha contra a produção de açaí pelas “máquinas”, localizadas em qualquer ponto da cidade, no centro e na periferia. O mote é a falta de higiene no apanho, na armazenagem, no transporte e nas “máquinas”, com a utilização de água contaminada; o açaí seria o grande “vilão” da doença de chagas, transmitida pelo “barbeiro” que se fixaria nos frutos do açaí. A criatividade, por certo, está ausente na produção dos argumentos.
Sou da época em que os “doutos” afirmavam que açaí era só “bucha” e que não alimentava, apenas enchia a barriga... foi no tempo de implantação das indústrias de palmito, com a triste imagem na lembrança dos “obeliscos” de açaizeiros em Cametá e na região das ilhas. Vi, em minha casa, e em “pontos” de venda de açaí, com bandeira vermelha à porta (a lembrar a bandeira dos cabanos, esta, acredito, tenha inspirado a bandeira do Pará), amassar açaí com as mãos, com peneira e alguidar. Meu pai viveu oitenta e seis anos apreciando, quase todos os dias, açaí com farinha.
Pesquisas recentes comprovam que o açaí constitui-se em alimento completo, contendo antioxidante (pigmentos antocianinas no combate ao colesterol, e, vitamina E e A, na prevenção do câncer) três vezes superior ao da uva (do vinho tinto), além de minerais, fibras, proteínas, carboidratos, potássio, cálcio, vitamina B1. Beber açaí, até como energético, virou modo no sul e sudeste do país e no exterior.
As lições do leite, adicionada com esses elementos, todavia, forçam-me a pensar que estão querendo acabar com os pontos de “máquinas de açaí”, para total industrialização do “vinho” de nossa frutinha... e sinto saudade de nossas amassadeiras de açaí.
Também lembro da imposição da margarina e do desaparecimento das cachaças de produção artesanal de Igarapé-Miri e Abaetetuba. Mas é outra história.


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