Caboco cronista
GRANDE AMAZONAS
Gursen De Miranda *
Não sou poeta nem seresteiro nem cantador. Amazonas foi.
Logo, é possível perceber que não pretendo dizer do grande rio, o maior em extensão e o maior em volume d’água.
Vou falar da grandeza de uma pessoa, de um ser humano.
Já disseram da grandeza como cidadão e como político, quando de sua reação ao regime militar implantado no país nos idos de 64, que lhe valeu a clandestinidade, ou como representante do povo de Boa Vista como vereador. Sabia defender seus ideais num Estado Social.
Falaram que a grandeza como intelectual não ficou apenas em suas obras de arte de artesão em madeira ou couro, ou em seus vários livros escritos como memorialista e historiador, ou até mesmo com a criação do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Roraimense, o seu IHGERR, mas, principalmente, pelo reconhecimento pelo mundo intelectual de Roraima, ao ser aceito como membro vitalício da Academia Roraimense de Letras. Foi um mecenas.
A peculiar grandeza familiar na ausência como pai num espaço de Gute e Márcia, quando em outro, com outro nome, fez nascer a filha Juliana. Na outra ponta a presença permanente com Vitória... e chegaram todos. Soube conduzir com habilidade o peso da tradição de uma família, traçando o liame entre seus irmãos, sobrinhos e demais... tudo parente. Teve em Rogelma, bem além de uma companheira, uma verdadeira guerreira, para juntos enfrentarem sua derradeira batalha.
Mas, o que pretendo dizer é de sua grandeza ao enfrentar por uns quinze anos seu problema de saúde, agravados nos últimos cinco, dos quais mais de um ano e três meses sem sua principal arma na trincheira da cidadania – a voz que ninguém conseguiu calar. Voz de ironia fina; ferina. Ninguém pode dizer de suas lamentações, pois não ocorreram em nenhum momento. No contraponto, procurou confortar, sem ser piegas. Recebia a todos que o procurava com um sorriso no rosto e olhar sereno.
Vivia consciente do ser e o tempo, na finitude da vida.
Transmitia, sem nada dizer, ter cumprido sua missão, com qualidade de vida. E quem pode dizer que não viveu bem? Participou, reivindicou, lutou, bebeu, comeu..., amou.
Foi um verdadeiro conselheiro, não nas funções das contas do Estado, mas do coração e dos sentimentos da pessoa humana. Sabia ouvir, como ouvia, e com os gestos das mãos e as expressões do olhar muito dizia. Preparou aqueles que o cercavam, com a consciência de estar preparado.
Esta teria sido sua principal grandeza; a grandeza espiritual. É o seu legado maior.
É uma questão de dignidade.
Grande Amazonas Brasil.
(Fonte: Jornal Folha de Boa Vista, de 03 de junho 2010).

